A veneranda Joana de Ângelis

Escrito por Maria Aparecida Romano

Mediunidade é comunicação, logo, o fenômeno mediúnico é a relação entre dois espíritos através de uma sintonia mental. A mediunidade da escrita (psicografia) ocorre em toda a parte, contando com o concurso de médiuns que vêm desempenhando tarefas de projeção, todos propugnando o engrandecimento dos postulados espíritas. O conhecido médium brasileiro Divaldo Pereira Franco, sob a orientação de benfeitores espirituais, tem obtido mensagens inspiradas, especialmente por um que durante muito tempo se apresentou como “um espírito amigo”.

Ocultando-se no anonimato, à espera do instante oportuno, se fez conhecida, um dia, a Divaldo: “Chamo-me Joanna de Ângelis”. Desde então, o perseverante médium passou a vê-la e ouvi-la diariamente com a aparência de uma freira, psicografando mensagens curtas, revelando-se acima de tudo, na condição de mãe terna e amorosa, cuja presença, sempre atenta e vigilante, bondosa e sábia, foi despertando intensa curiosidade a seu respeito. Afinal, quem seria esse espírito? Para revelar a seu dedicado filho o seu surpreendente retrospecto reencarnacionista, transfigurou-se para que todos pudessem conhecê-la melhor.

Nas estradas dos séculos vamos encontrar Joanna de Ângelis na mansa figura de Joanna, mulher de rara dedicação e nobre caráter, casada com Cusa, intendente de Herodes Ântipas, tetrarca da Galiléia (4 a. C. a 39 d. C.). É mencionada no Evangelho de Lucas (VIII. v.v. 2 a 3): “Algumas piedosas mulheres que haviam sido curadas por Jesus, entre elas Maria, chamada Madalena; Joanna esposa de Cusa; Suzana e muitas outras; acompanhavam o nazareno nas suas pregações e lhe prestavam assistência com seus bens”. O fato gerou a reprovação do esposo que não lhe compartilhava os anseios de espiritualidade, não aceitando a doutrina daquele mestre que Joanna seguia.

Angustiada pela intolerância do esposo, Joanna buscou a orientação sábia de Jesus que traçou-lhe um roteiro de conduta para viver com resignações. Ao invés de convidá-la para segui-lo pelas estradas da Galiléia, aconselhou-a a servi-lo dentro do próprio lar atendendo seu esposo com dedicação. A fiel Joanna deveria aproveitar o máximo as lições que esse convívio lhe oferecia, proporcionando oportunidade de burilamento, recurso intermediário para atingir o fim que ela se propôs para a evolução espiritual.

Cusa, após uma vida tumultuada e inditosa, faleceu, deixando Joanna sem recursos e um filho para criar. Esquecendo o conforto e a nobreza material na sociedade de Cafarnaum dedicou-se aos afazeres domésticos, tornando-se ao mesmo tempo um verdadeiro exemplo de pessoa cristã, no atendimento aos necessitados. Joanna é novamente mencionada no Evangelho de Lucas (XXIV. v.v. 1 a 3 ): ” Na manhã de Páscoa, primeiro dia da semana, ao nascer da aurora, Maria de Magdala, Joanna de Cusa e Maria, mãe de Tiago entre outras foram ao sepulcro com os aromas que tinham preparado. Encontraram a pedra rolada para longe da abertura do sepulcro, entraram e não acharam ali o corpo de Jesus”.

No ano de 65 da Era Cristã, em Roma, após violento incêndio idealizado pelo imperador Nero, destruindo parcialmente a cidade, os seguidores da “seita do nazareno”, a quem o sinistro foi atribuído, sofreram cruéis perseguições. Já idosa, Joanna foi levada ao “circo dos martírios (Coliseu) com seu jovem filho e mais 500 cristãos para testemunhar o amor a Jesus. A corajosa discípula de Jesus, mesmo com o corpo consumido pelas labaredas não pronunciou uma palavra de negação à sua crença, morreu perdoando os carrascos.

A irmã franciscana

No século XI, Francisco de Assis, transmitindo sábias palavras e gestos amorosos, marcou o início do movimento franciscano, que seria conhecido como Ordem dos Frades Franciscanos. Clara de Assis, que compartilhava dos mesmos ideais de amor e doação ao próximo, tornou-se a primeira religiosa franciscana, fundando em 1212 a Ordem das Clarissas, responsabilizando-se pela continuidade do ideal de Francisco. Vamos encontrar Joanna, nessa época, talvez, na Ordem fundada por Clara, sob os postulados de caridade preconizados.

No século XVII, Joanna renasceu em 1651 na pequenina San Miguel Neplanta, cerca de 80 quilômetros da cidade do México, com o nome de Juana de Asbaje y Ramirez de Santillana, filha do basco D. Manuel Asbaje e da indígena Isabel Ramirez de Santillana. Foi criança precoce. Aos três anos de idade aprendeu as primeiras letras, aos cinco fazia versos e aos seis dominava o idioma pátrio. Aos 12 anos, residindo na capital do México, aprendeu latim e português, falava corretamente Nahuatle, língua indígena dos Nacas, geralmente chamados de Astecas, além de possuir habilidade para os afazeres comuns às mulheres da época.

Ansiosa por compreender a Deus, ingressou aos 16 anos no Convento das Carmelitas Descalças, ordem reformada por Tereza D’Ávila, porém, desacostumada com a rigidez ascética, adoeceu e retornou à Corte. Seguindo a orientação de seu confessor, foi para a Ordem de São Jerônimo da Conceição tomando o nome de Sóror Juana Inés de La Cruz. Cercada por inúmeros livros e instrumentos musicais, Juana estudava, escrevia poemas, peças religiosas e compunha músicas sacras. Freqüentemente visitada por intelectuais, a “linda monja da biblioteca”, como era conhecida, sempre dizia: “pela compreensão o homem se trona superior aos animais”.

Juana fez-se competente em teologia moral e dogmas, medicina, astronomia e direito canônico. Criou um sistema simples de anotar música e ganhou fama como pintora. Buscando na História dezenas de vultos femininos que marcaram época pela sabedoria e competência citando feitos e influências, defendeu o direito da mulher de pregar livremente.

Em 1695 houve uma epidemia de peste na região. Juana socorreu durante dia e noite as suas irmãs religiosas como a maioria da população. Juana, tombou vencida aos 44 anos de idade.

Passados 66 anos, em 11 de dezembro de 1761, Joanna reencarnaria em Salvador, Brasil, filha de uma abastada família. Aos 21 anos de idade entrou no convento franciscano Nossa Senhora da Lapa, com o nome de Sóror Joanna Angélica de Jesus. Entre 1795 e 1801 exerceu diversos cargos burocráticos na comunidade, assumindo a função de vigária. Eleita abadessa em 1814, esteve à frente do convento até 1817.

Nesse período, em todo o território brasileiro, era crescente a agitação revolucionária visando a separação do Brasil de Portugal. O imperador D. Pedro I, no dia 7 de setembro de 1822, quando regressava do Rio de Janeiro, ao receber despachos de Lisboa noticiando medidas reacionárias tomadas pela Corte Portuguesa, declarou às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, a independência do Brasil consolidando-se o sentimento de separação. Na Bahia, as tropas portuguesas comandadas pelo brigadeiro Inácio Luiz Madeira de Maia resistiram tenazmente travando conflitos sangrentos.

No dia 19 de fevereiro de 1823, quando as tropas investiram no mosteiro de Nossa Senhora da Lapa, no qual a sóror Joanna Angélica era superiora, saiu-lhes à entrada intimidando-os com a cruz alçada, a não profanarem o abrigo das filhas do Senhor. Resistiu valentemente, mas não lhe valeu a coragem e, ali mesmo, caiu varada a golpes de baioneta. Com seu martírio, deu tempo às noviças escaparem, refugiando-se no Convento da Soledade. Recebeu socorros, vivendo, porém, poucas horas, desencarnando no dia seguinte. Tombando numa luta pelos ideais de liberdade, sóror Joanna Angélica de Jesus tornou-se mártir da independência do Brasil.

Joanna e a Codificação

Prosseguindo sua caminhada no mundo espiritual, Joanna estagia numa bonita região próxima da crosta terrestre como verdadeira amiga e benfeitora, orientando as criaturas através dos séculos para Jesus e para o bem. Na metade do século XIX, quando os ventos da codificação sopraram na Europa e na América, foram convocados espíritos de boa vontade dispostos ao trabalho; na ocasião, Joanna ofereceu valiosa colaboração integrando a equipe do Espírito da Verdade, que trouxe ao mundo material revelações valiosas, dando cumprimento à promessa do Cristo. O Evangelho Segundo o Espiritismo, mensagens assinadas por um “Espírito Amigo” apresenta Jesus como o modelo das nossa atitudes, em qualquer situação.

No século XX, quando vários espíritos ligados a Joanna se preparavam para reencarnar, reuniu a todos e planejou construir na Terra, sob o céu da Bahia, no Brasil, uma cópia da comunidade onde estagiava no Plano Espiritual. No dia 15 de agosto de 1952 foi inaugurada a Mansão do Caminho, nome dado em alusão à Casa do Caminho dos primeiros cristãos, com o objetivo de criar uma experiência educativa que demonstrasse a viabilidade de se viver numa comunidade realmente cristã nos tempos modernos.

Em 1964, através de Joanna, o médium Divaldo Pereira Franco publicou seu primeiro livro, Messe de Amor, marco inicial de uma centena de livros através dos quais Joanna procura confortar os mais diversos leitores e necessitados, iluminando mentes à luz do Evangelho. São páginas ricas de consolação que são distribuídas para várias partes do mundo traduzidas para vários idiomas, imprimindo nos corações carentes de luz a mensagem de amor do Mestre da Galiléia.

Publicado na Revista Cristã de Espiritismo – ed. 32

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